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Melina Gomes*
Especial para o Sabores da Cidade

Quem chega em Fortaleza pela BR 222 ou sai rumo a Caucaia pela Avenida Mister Hull pode sentir o cheiro de castanha assando que sai da fábrica Cione, onde tem uma torre bem alta com os dizeres “Caju é alimento”. Para além da obviedade, a frase mostra o empenho do empresário Jaime Aquino em aproveitar integralmente a polpa do caju. Sabe por quê? Jaime, que serviu ao Exército e foi caminhoneiro após a difícil infância órfão de pai e mãe, tornou-se um dos maiores empresários do beneficiamento de caju no mundo.  

Em 2003, recebeu o troféu Carnaúba e dispunha então de 12 fazendas de caju – mais de 150 mil hectares entre Ceará e Piauí, o que lhe rendeu o título de “Soberano do Caju” por ser o maior plantador de cajueiros do mundo. A monocultura do caju funcionava com a contratação de temporários na época da colheita e a proletarização do campesinato e acabou gerando divisas de mais de 12 milhões ao ano, exportando para mais de seis países.

Jaime repetia que “caju é alimento” quando, ciente da fome do mundo, não se conformava em ver toneladas e toneladas da polpa do caju ser descartada. E resolveu investir na fibra do caju (carne de caju), evitando desperdícios. Contratou chefs e nutricionistas, fez do refeitório de sua fábrica um laboratório aberto com mais de 40 receitas – omelete, moqueca, pastel, almôndega… Em 2012, provei o hambúrguer. Era uma delícia. As receitas chegaram a ser publicadas em um folheto intitulado “Nova Culinária Nordestina”, em que uma das propostas era levar receitas com caju à alimentação escolar. À época, o programa Fome Zero servia de inspiração. 

Jaime Aquino não é um vilão, tampouco um herói. É figura importante em nossa história, pois construiu um império que lida claramente com cultura gastronômica e novos modos de produção na relação campo/cidade.

E a Guerra das Castanheiras?

 Foi uma greve puxada pelas trabalhadoras da fábrica Cione no ano de 1968, em plena Ditadura Militar. Reivindicando melhores condições de trabalho e salário, as castanheiras eram sobretudo mulheres pobres, periféricas e negras. As grevistas da Cione receberam auxílio de sindicatos, mas o movimento foi orgânico e autônomo. Dada a repressão a que foram submetidas, a greve mais parecia uma guerra, daí o nome. De lá para cá, melhorias foram alcançadas, mas as denúncias de más condições de trabalho ainda são destaque na indústria de beneficiamento de caju.

O que mais chama a atenção sobre o episódio, segundo Ramos (2018)**, foi o quanto este movimento nos faz atentar para a dimensão de luta de classes durante aquele período e, curiosamente, o episódio não parece ter ganhado relevância ou destaque histórico. Se fosse masculino, constaria nos autos mais famosos do movimento sindical? E se fosse em algum estado de outra região do Brasil? 

Saiba de onde vem seu caju, sua castanha, sua cajuína, seu doce. A economia não pode se sobrepor à vida. Jaime Aquino não foi bandido ou mocinho. Não há vilões claros, há pessoas com história e rumos que o capitalismo acolhe e faz reproduzir. Caju é alimento, sim! E a luta de classes move a história.

Crianças sem identidade, o trabalho infantil na produção de castanha de caju  | Meia infância
Imagem Ilustrativa – Foto do Site Repórter Brasil

* Melina Gomes, professora, dona de casa, psicóloga e mestre em Sociologia. Pesquisa o circuito de feiras agroecológicas urbanas em Fortaleza – CE, interessada em tudo que promove soberania alimentar e valoriza as práticas alimentares tradicionais de nossa cultura. Gosta de cozinhar, comer e beber sabendo de onde vem nossos alimentos.

** RAMOS, M. H. R. A guerra das castanheiras da Cione (Fortaleza-CE, 1968): contra hegemonia, consciência de classe e memoria de luta.279p. Dissertação (mestrado). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2018.

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